Avançar para o conteúdo principal

JOSEPH CONRAD - A LINHA DE SOMBRA

JOSEPH CONRAD - A LINHA DE SOMBRA
THE SHADOW LINE


"A Linha de Sombra", o título da última obra-prima de Joseph Conrad, datada de 1917, é aquele limite - tão indefinível e incompreensível, como inquietante e doloroso - que, num certo momento da vida, se desenha, de alguma maneira, para marcar irrevogavelmente o fim da juventude. Para o protagonista deste intenso romance, a manifestação dessa fronteira coincide com uma experiência excepcional e dramática: oficial da marinha mercante na sua primeira comissão, depara-se no seu navio à vela com uma interminável calmaria no clima insalubre dos mares do sudoeste asiático, enquanto vê a sua tripulação ser dizimada por uma violenta epidemia de febre tropical.
A imobilidade cada vez mais ameaçadora e sinistra do navio contrapõe-se a intensificação, nos homens que o deveriam governar, de uma angústia e de um medo que de sub-reptícios passam gradualmente a espasmódicos, deixando o comandante na desolada solidão da sua responsabilidade e da sua impotência.
Nos vinte dias de calmaria, metáfora extrema de um tempo e de um espaço terrivelmente concentrados, ele parecerá atravessar todas as fases de uma existência, descobrindo a maravilha no terror, ou na ânsia irremediável nos sobressaltos de alegria ou ainda a sensação de subtil derrota que se aninha num acontecimento liberatório. E quando dele sair, mostrará, de algum modo, o traço indelével de uma ferida da alma, no fundo da qual encontrará confusa e corajosamente a consciência definitiva da condição humana. 
            

colecção mil folhas - abril 2003

Comentários

Mensagens populares deste blogue

ARNOLD HAUSER - HISTÓRIA SOCIAL DA ARTE E DA LITERATURA

"Uma obra marcante, cuja riqueza quantitativa e qualitativa pode ser apenas sugerida em uma resenha. O contexto temporal é extraordinariamente amplo... O valor da obra consiste principalmente no fato de que Hauser, fundamentando em um conhecimento preciso de fontes e literatura especializada, reúne resultados excepcionalmente claros da sociologia da arte, da música e da literatura. Com isso, ao lado de uma riqueza de investigação sociológica não específica, são avaliadas as importantes escolas da sociologia burguesa europeia e americana, de Taine , Max Weber , Dilthey , Troeltseh, Simmel, Sombart, Veblen até Karl Mannheim, Levin Schueking e outros críticos. Hauser, além desses pesquisadores burgueses, examina também Marx, Engels, Mehring, Kautsky, Lenin e Georg Lukács e une as descobertas destes às suas próprias observações, dando mostras, assim, de sua imparcialidade. ... Deve-se desejar que sociólogos, assim como historiadores de todas as tendências, estudem cuidadosamente ...

SIMONE DE BEAUVOIR - O SANGUE DOS OUTROS

"Contar as vidas humanas, comparar o peso de uma lágrima com o peso de uma gota de sangue, era uma tarefa impossível, mas ele já não tinha que fazer contas, e toda a moeda era boa, mesmo essa: o sangue dos outros. O preço nunca seria caro de mais." Com a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo, O Sangue dos Outros narra-nos a história de amor entre Hélène e Jean. No entanto, a frase de Dostoievski que inaugura o romance, "Todos somos responsáveis por tudo perante todos", já nos anuncia aquele que será o eixo temático da narração: a responsabilidade do indivíduo na sociedade em que vive, as implicações do compromisso ideológico, o preço a pagar pela liberdade, o papel dos líderes políticos... Todas estas linhas temáticas têm como pano de fundo as questões filosóficas colocadas pelo movimento existencialista, do qual Simone de Beauvoir, com Jean-Paul Sartre e Albert Camus, foi uma das impulsionadoras. Embora este romance, assim como outros da autora...

JOSÉ GIL - PORTUGAL, HOJE O MEDO DE EXISTIR

O   objecto do texto aproxima-se mais do que os historiadores chamam "mentalidades" do que de qualquer outra matéria disciplinar. Mas recorre-se a apontamentos etnográficos, a factos e anedotas triviais, a conceitos psicanalíticos e filosóficos, a outros da ciência política, etc. Digamos que, epistemologicamente, o campo explorado é indefinido, com uma transversalidade no trajecto de certas noções que pode ter as suas vantagens. ( ...) Enfim, contrariamente ao que pode parecer, nenhum pressuposto catastrofista ou optimista quanto ao futuro do nosso país subjaz ao breve escrito agora publicado. Se não se falou "no que há de bom", em Portugal, foi apenas porque se deu relevo ao que impede a expressão das nossas forças enquanto indivíduos e enquanto colectividade. Seria mais interessante, sem dúvida, mas também muito mais difícil, descobrir as linhas de fuga que em certas zonas da cultura e do pensamento já se desenham para que tal aconteça. Procurou-se dizer o ...

FRANK TIPLER - A FÍSICA DA IMORTALIDADE

FRANK TIPLER - A FÍSICA DA IMORTALIDADE THE PHYSICS OF IMMORTALITY - MODERN COSMOLOGY, GOD AND THE RESURRECTION OF THE DEAD do prefácio « É muito raro, nos tempos que correm, deparar com um livro em que se proclame a unificação da ciência e da religião. É um facto excepcional encontrar uma obra em que se declare, como farei ao longo deste livro, que a teologia é um ramo da física, que os físicos podem inferir a existência de Deus através do cálculo e a probabilidade da ressurreição dos mortos para a vida eterna exactamente da mesma forma como os físicos calculam as propriedades do electrão. É natural que se perguntem se estou a falar a sério. Estou a falar muito seriamente, mas estou tão surpreso como o leitor. Quando iniciei a minha carreira como cosmólogo, há cerca de vinte anos, era um ateu convicto. Nunca imaginei, nos meus sonhos mais loucos, que um dia viria a escrever um livro com o objectivo de mostrar que as afirmações da teologia judaico-cristã são de facto verdadeiras,...

FRANCIS FUKUYAMA - O FIM DA HISTÓRIA E O ÚLTIMO HOMEM

À medida que o século XXI se aproxima, Francis Fukuyama pede que regressemos a uma questão que tem sido levantada pelos grandes filósofos do passado: a história da humanidade segue uma direcção? E, se é direccional, qual o seu fim? E em que ponto nos encontramos em relação ao «fim da história»? Nesta análise empolgante e profunda, Fukuyama apresenta elementos que sugerem a presença de duas poderosas forças na história humana. A uma chama «a lógica da ciência moderna», a outra «a luta pelo reconhecimento». A primeira impele o homem a preencher o horizonte cada vez mais vasto de desejos através do processo económico racional; a segunda é, de acordo com Fukuyama (e Hegel), nada menos do que o próprio «motor da história». gradiva - 2ª edição 1999    Ligações ao livro/autor: http://www.marxists.org/reference/subject/philosophy/works/us/fukuyama.htm https://fukuyama.stanford.edu/ http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u29838.shtml http://observador.pt/2015...